O cessar-fogo entre as forças israelenses e os grupos armados palestinos, decidido por meio de um acordo, em janeiro de 2009, de maneira geral foi respeitado. O exército israelense manteve controles draconianos sobre a circulação de palestinos nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO), inclusive o bloqueio da Faixa de Gaza, que ampliou as dificuldades e praticamente manteve presa toda a população de 1,5 milhão de pessoas. As autoridades israelenses rejeitaram ou protelaram pedidos de autorização para sair de Gaza apresentados por centenas de cidadãos palestinos que necessitavam de tratamento médico especializado. Em consequência, alguns deles morreram. A maioria dos habitantes de Gaza depende de ajuda humanitária internacional, que foi bastante prejudicada pelo bloqueio. Em maio, as forças israelenses mataram, em águas internacionais, nove homens a bordo de uma flotilha humanitária que pretendia furar o bloqueio. Na Cisjordânia, a circulação de palestinos foi severamente restringida devido às centenas de barreiras e de postos de controle israelenses e à cerca/muro de 700 km que Israel continua construindo dentro da Cisjordânia. Houve um aumento substancial no número de demolições, pelas autoridades israelenses, de casas, cisternas e de outras estruturas palestinas na Cisjordânia, afetando milhares de pessoas. As autoridades israelenses também destruíram casas em aldeias beduínas no sul de Israel. A expansão dos assentamentos israelenses ilegais em terras palestinas desapropriadas, parcialmente congelada até 26 de setembro, foi retomada. Israel ainda não instaurou inquéritos adequados para investigar supostos crimes de guerra e outras violações graves do direito internacional cometidos por suas forças durante a operação "Chumbo Fundido", ofensiva de 22 dias na Faixa de Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, no decorrer da qual morreram cerca de 1.400 cidadãos palestinos, incluindo mais de 300 crianças. De maneira geral, soldados e colonos israelenses que cometeram abusos graves contra palestinos, incluindo assassinatos, agressões e atentados contra a propriedade, não foram responsabilizados pelos crimes. As forças militares israelenses mataram 33 civis palestinos nos TPO, entre eles oito crianças. Centenas de cidadãos palestinos foram presos e detidos pelas forças israelenses; pelo menos 264 foram detidos sob ordens de detenção administrativa, sem acusação nem julgamento; alguns se encontravam detidos há mais de dois anos. Relatos de tortura e de outros maus-tratos foram frequentes; contudo, raras foram as investigações. Cerca de 6 mil palestinos permaneciam em prisões israelenses, muitos dos quais após julgamentos militares injustos. Israelenses que se recusavam a prestar serviço militar por razões de consciência continuaram sendo presos.
A região da fronteira entre Israel e Líbano permaneceu tensa. Em 03 de agosto, uma troca de tiros entre soldados israelenses e libaneses resultou na morte de pelo menos três soldados e de um jornalista libanês.
Ainda que o cessar-fogo entre forças israelenses e grupos armados palestinos tenha sido mantido durante a maior parte do tempo, os grupos palestinos dispararam foguetes e morteiros contra o sul de Israel (ver seção sobre a Autoridade Palestina) de maneira periódica e indiscriminada, embora em ritmo mais lento do que o observado em anos anteriores. As forças israelenses, por sua vez, atacaram e mataram os cidadãos palestinos que alegavam ser os responsáveis. Em 31 de agosto, quatro colonos israelenses foram mortos a tiros na Cisjordânia; o ataque foi reivindicado pelas brigadas Izz al-Din al-Qassam, braço militar do Hamas, grupo palestino que venceu as eleições em 2006 e que administra a Faixa de Gaza.
Negociações entre Israel e a Autoridade Palestina (AP), embora sem a participação do Hamas, foram convocadas pelo governo dos EUA em setembro. Porém, foram suspensas pouco depois, no dia 26 daquele mesmo mês, quando expirou a moratória parcial israelense de 10 meses para a construção de colônias judaicas nos TPO, ocasionando a retirada da AP do diálogo direto. A moratória excluía Jerusalém Oriental e seus arredores. Na Cisjordânia, a construção de prédios públicos e as obras feitas por "necessidades de segurança" não cessaram.
Início da páginaO bloqueio da Faixa de Gaza, em vigor desde junho de 2007, sufocou a economia e acentuou a pobreza da população local. Em meio a problemas permanentes de saúde, saneamento básico, pobreza e desnutrição, cerca de 80 por cento dos habitantes de Gaza passaram a depender de ajuda humanitária internacional, cujo fluxo foi obstruído pelo bloqueio.
A grave escassez provocou um forte aumento dos preços. A maioria dos projetos de reconstrução da ONU para prover escolas e centros de saúde teve que ser adiada. Como resultado, cerca de 40 mil crianças palestinas aptas a matricularem-se nas escolas da ONU em setembro tiveram que ser dispensadas.
Na prática, todos os habitantes de Gaza foram aprisionados no pequeno enclave, inclusive pessoas com doenças graves que necessitavam de tratamento em outros locais e muitos estudantes e trabalhadores que desejam estudar ou ocupar postos de trabalho fora dali. Poucos foram autorizados a sair de Gaza.
Em maio, as tropas israelenses interceptaram de forma violenta uma flotilha de ajuda humanitária que tentava furar o bloqueio, matando nove dos tripulantes e ferindo mais de 50, alguns gravemente. Muitos soldados israelenses ficaram feridos. Vários inquéritos foram abertos para investigar o ataque, incluindo dois conduzidos pela ONU. Em setembro, a missão de inquérito nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que "força letal foi usada pelos soldados israelenses de uma maneira tão generalizada e arbitrária que causou um número desnecessariamente alto de pessoas gravemente feridas ou mortas". Uma comissão de inquérito nomeada pelo governo israelense não desfrutou de independência e transparência.
Na sequência de críticas internacionais contra o ataque, o governo anunciou uma flexibilização parcial do bloqueio, embora essa abertura tenha sido insuficiente para melhorar significativamente as condições em Gaza. Até 8 de dezembro, Israel continuou proibindo todas as exportações de mercadorias da Faixa de Gaza e, até o final do ano, a anunciada flexibilização das restrições às exportações não havia sido implementada. A Anistia Internacional considerou que o bloqueio constitui um castigo coletivo, que viola o direito internacional humanitário, e apelou, repetidas vezes, a que fosse suspenso.
Início da páginaCentenas de postos e barreiras militares israelenses restringiram a circulação de palestinos na Cisjordânia, dificultando ou bloqueando o acesso a locais de trabalho, educação, serviços de saúde e outros.
No final de 2010, cerca de 60 por cento da construção dos planejados 700 km de cerca/muro estava concluídos; mais de 85 por cento de todo o percurso estão em terras palestinas na Cisjordânia. A cerca/muro separou milhares de palestinos de suas terras e fontes de água. O acesso a Jerusalém Oriental, para os palestinos da Cisjordânia que possuíam autorizações de entrada, foi possível apenas através de três dos 16 postos de controle ao longo da cerca/muro. As consequências dessa situação foram especialmente desastrosas para pacientes e equipes médicas que tentavam chegar aos seis hospitais palestinos especializados de Jerusalém Oriental.
Os cidadãos palestinos continuaram sem ter acesso a extensas porções de terra próximas às colônias israelenses criadas e mantidas em violação ao direito internacional. A população de colonos na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, atingiu a marca de mais de meio milhão. Os palestinos também foram impedidos ou tiveram acesso restrito a cerca de 300 km de estradas secundárias utilizadas pelos colonos israelenses. Por outro lado, o tempo de translado gasto por palestinos entre a maioria das cidades, especialmente no norte, foi reduzido em 2010 devido à remoção de algumas barreiras por parte de Israel e a algumas melhorias na malha rodoviária para carros com placas da Palestina, apesar de as viagens continuarem lentas e árduas.
Início da páginaCidadãos palestinos residentes da Cisjordânia, inclusive Jerusalém Oriental, sofreram restrições tão rigorosas aos tipos de construções permitidas a ponto de essas restrições constituírem violações ao seu direito à moradia adequada. Despejos foram efetuados na Cisjordânia, inclusive em Jerusalém Oriental, sob alegação de que as casas haviam sido construídas sem licença; tais licenças das autoridades israelenses são quase impossíveis de serem obtidas por palestinos. Equipes de demolição, acompanhadas por agentes de segurança, normalmente chegavam sem aviso prévio, oferecendo às famílias poucas oportunidades de removerem seus pertences. De acordo com o direito militar israelense, aplicado à maioria dos palestinos da Cisjordânia, não há exigência de que famílias despejadas sejam reabrigadas ou compensadas. Os cidadãos palestinos em Jerusalém Oriental obtiveram condições um pouco melhores por parte das autoridades civis israelenses. Em 2010, as autoridades demoliram 431 estruturas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, um aumento de 59 por cento em relação a 2009. Pelo menos 594 cidadãos palestinos – metade crianças – ficaram desalojados depois que suas casas foram demolidas por ordem das autoridades israelenses. Enquanto isso, mais de 14 mil palestinos foram afetados pela demolição de cisternas, poços e estruturas relacionados a sua subsistência.
Dentro de Israel, houve um aumento acentuado da demolição de casas de beduínos na área de Negev (ou Naqab), no sul do país. Dezenas de aldeias onde vivem dezenas de milhares de beduínos, que são cidadãos israelenses, não são reconhecidas formalmente pelas autoridades do país. Faltam serviços básicos nesses locais, e os moradores sofrem constantes ameaças de destruição de suas casas e de expulsão daquelas terras.
As forças de segurança israelenses usaram força excessiva contra civis palestinos, incluindo manifestantes pacíficos na Cisjordânia e em Gaza, bem como contra agricultores, pescadores e outros profissionais que trabalham na área que Israel declarou como "zona de exclusão" dentro de Gaza ou em suas águas costeiras. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, 33 civis palestinos, incluindo oito crianças, foram mortos por forças israelenses nos TPO em 2010. Quinze civis palestinos, entre eles quatro crianças, foram mortos e mais de 100 deixados feridos quando as forças israelenses davam cumprimento a uma "zona de exclusão" de 1.500 metros para dentro das fronteiras norte e leste de Gaza e às restrições marítimas.
Soldados israelenses, membros das forças de segurança e colonos continuaram gozando de impunidade por violações dos direitos humanos cometidas contra palestinos, inclusive homicídios injustificados. Os casos de violência praticados por colonos incluíam disparos contra palestinos e destruição de suas propriedades. Somente em casos extremamente raros os autores foram responsabilizados por suas ações.
Segundo um minucioso relatório sobre impunidade, publicado em outubro pela organização israelense de direitos humanos, B'Tselem, os militares israelenses mataram 1.510 palestinos entre 2006 e 2009, sem contar os mortos durante a operação "Chumbo Fundido". Destes, 617 pessoas, incluindo 104 menores de 18 anos, não tomavam parte nas hostilidades quando foram mortas. A B'Tselem solicitou uma investigação sobre 288 dos assassinatos cometidos em 148 incidentes, a maioria na Faixa de Gaza. Foram abertas investigações em apenas 22 incidentes, a maioria na Cisjordânia. A B'Tselem informou que apenas quatro inquéritos foram abertos dentro do prazo de um mês após o incidente. Em dois inquéritos, o caso foi encerrado sem qualquer processo contra os soldados envolvidos.
Embora algumas investigações militares israelenses sobre incidentes específicos estejam em curso, o governo ainda não logrou realizar investigações independentes e em conformidade com as normas internacionais sobre supostos crimes de guerra e outras violações graves do direito internacional cometidos por forças israelenses durante a operação "Chumbo Fundido". A missão de averiguação independente criada pela ONU (relatório Goldstone) para investigar o conflito verificou que, em 2009, tanto as forças israelenses quanto os grupos armados palestinos haviam cometido crimes de guerra e possivelmente crimes contra a humanidade.
Até o final de 2010, apenas três soldados israelenses haviam sido condenados por ligações com a operação "Chumbo Fundido". Dois deles foram condenados por "conduta não-autorizada" por ordenar que um garoto palestino de nove anos, Majed R., atuasse como "escudo humano", abrindo sacos que eles acreditavam ser uma armadilha. Em novembro, eles foram rebaixados e receberam penas suspensas de três meses de prisão.
Uma vez que nenhuma das partes conduziu investigações adequadas, a Anistia Internacional solicitou que a questão fosse encaminhada aos mecanismos de justiça internacional.
Em janeiro, Israel pagou à ONU 10,5 milhões de dólares de compensação pelos danos causados aos prédios da organização durante a operação "Chumbo Fundido". No entanto, nenhuma indenização foi paga a qualquer outra vítima dos ataques ou em seu nome. Segundo a ONU, o pagamento encerrava os litígios financeiros relacionados com a operação, embora o relatório Goldstone tivesse recomendado especificamente que a ONU deveria pedir reparação não só para funcionários da organização e para os civis mortos ou feridos durante os ataques contra as instalações da ONU, mas também para as vítimas civis de outros ataques durante a Operação.
Israel continuou impondo um sistema de detenção administrativa por meio do qual palestinos são detidos por períodos prolongados sem acusação ou julgamento. Pelo menos 264 palestinos foram submetidos a ordens de detenção administrativa em 2010. Alguns se encontravam detidos por mais de dois anos.
Cerca de 680 prisioneiros palestinos continuaram tendo a visita de familiares negada; alguns deles pelo terceiro ano consecutivo, uma vez que, desde a imposição do bloqueio, os palestinos da Faixa de Gaza ficam impedidos de viajar para Israel, onde os presos estão detidos.
Cidadãos palestinos dos TPO, sujeitos ao sistema de justiça militar de Israel, continuaram enfrentando uma série de violações de seu direito a um julgamento justo. Eles são rotineiramente interrogados sem a presença de um advogado e, apesar de serem civis, são julgados perante tribunais militares, ao invés de na justiça comum.
Início da páginaForam frequentes as denúncias consistentes sobre torturas e outros maus-tratos, inclusive de crianças. Dentre os métodos mais citados estão espancamentos, ameaças aos detentos ou a suas famílias, privação de sono e submissão a posições dolorosas por períodos prolongados. Confissões supostamente obtidas sob coação foram aceitas como provas na justiça comum e nos tribunais militares israelenses.
Houve um aumento no número de detenções, julgamentos e prisões de pessoas envolvidas em protestos não-violentos contra a cerca/muro. As autoridades recorreram com frequencia à Ordem Militar 101, que proíbe reuniões de 10 ou mais pessoas "para finalidades políticas ou para assuntos que poderiam ser interpretados como políticos", exceto mediante obtenção de licença concedida por um comandante militar israelense.
Pelo menos doze objetores de consciência israelenses foram presos por se recusarem a alistar-se para o serviço militar.